quarta-feira, 30 de setembro de 2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Filosofia de beira de estrada
O período que a gente passa na estrada, entre uma escola e outra, entre uma viagem e outra, dá um bocado de tempo para pensar na vida. Resolvi, então, compartilhar alguns desses pensamentos com vocês...
Angola é um país que enfrentou duas guerras sucessivas, que deixaram marcas indeléveis na população. A primeira foi a guerra pela independência. Angola era colônia de Portugal e queria deixar de ser. Para isso, a população pegou em armas. A segunda foi a guerra civil, que durou mais de 25 anos e que terminou apenas em 2002, com um saldo superior a 500.000 mortos.

A Província do Moxico, onde estou agora, foi uma das mais atingidas pela guerra civil. Foi nela, inclusive, que a guerra acabou, com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, que está enterrado em um cemitério aqui perto. O prédio que fica em frente ao hotel (foto ao lado) é todo cheio de buracos, inteiramente cravejado por balas. Estou aqui há menos de 24 horas e já vi uma quantidade enorme de pessoas mutiladas. Herança cruel das minas terrestres.
Angola vive hoje uma (pseudo)democracia. O ditad..., ops, presidente está no poder há exatos 30 anos e 18 dias. Há fotos dele espalhadas por todos os lugares. Todos mesmo! Em todas as cidades que conheci vi outdoors com a foto do dito cujo. A tal foto está em qualquer lugar em que se entre: repartições públicas, escolas, bares, lojas... As pessoas andam com camisetas estampadas com a foto. É uma coisa de louco. Eu brinco com as gurias dizendo que essa foto deveria ser souvenir daqui porque é uma das imagens mais representativas do país.
Não sei se vocês sabem, mas Angola tem uma riqueza natural gigantesca. São montes de diamantes, petróleo, ferro, minerais... A maioria da população obviamente não tem acesso a essa riqueza. Nós, que somos brasileiros, compreendemos bem como funciona esse processo. Mas, por uma série de motivos que não cabe elencar agora, as coisas aqui me saltam ainda mais aos olhos do que no meu país. Poderia filosofar um bocado sobre isso, mas por ora vamos nos concentrar um bocadinho nas minhas angolandanças.
Angola é um país em (re)construção. Todo mundo vem pra cá para ganhar dinheiro. Chineses, portugueses, brasileiros... O povo vem, explora e vai embora. É como eu disse logo que cheguei: aqui dá pra enriquecer fácil e rápido. E o povo, que tanto lutou por independência, continua sendo escravo do capital estrangeiro mesmo tendo total possibilidade de se sustentar. O que me tira o chão é que as pessoas investem bilhões de dólares em coisas absolutamente supérfluas e esquecem do mais básico. A esmagadora maioria dos angolanos não tem acesso a água, luz, saúde e alimentação. Escolas, então, nem se fala. Vocês viram algumas fotos, mas, assim como acontece com o sol laranja, elas não fazem jus à realidade. E, vá lá, até dá pra entender que os estrangeiros façam isso. Mas e o Governo? O que o Governo angolano ganha com tudo isso? Dinheiro? Os bolsos deles já estão cheios...pra que mais?!

E querem saber de uma coisa? O Governo de Angola não sabe o poder que tem nas mãos. Os caras que mandam, aqueles que ficam sentados em escritórios luxuosos, dizendo o que pode e o que não pode ser feito, o cara da foto... Eles não têm ideia do poder que está ao alcance de um estalar de seus dedos! Porque com tudo isso, com todas essas dificuldades, com toda a humilhação, com toda a miséria... Mesmo com tudo isso, e com muito mais, eles têm um país que é feito pelo sangue e pelo suor de pessoas que têm uma sede de conhecimento incrível. Pessoas que têm uma vontade gigantesca de serem melhores do que lhes disseram que poderiam ser. Pessoas que dariam a vida, literalmente, para construir um país que poderia fazer inveja a qualquer potência mundial.

Dizem que criança aqui é como capim: cresce em qualquer lugar e tem onde quer que se olhe. Pois essas crianças, essas que são como capim e que crescem em qualquer lugar, acordam às 4h da manhã e vão para a escola carregando suas cadeiras nas costas, pois não há troncos suficientes para sentarem embaixo das árvores onde têm aula. Elas saem de casa sem comer e caminham 5, 6, 7...10 quilômetros para chegar na escola, onde não recebem merenda. Elas muitas vezes não têm sapatos, nem lápis, nem cadernos, mas têm uma vontade enorme de aprender. E é isso o que as faz ir para a escola todos os dias. Escola que não tem paredes, nem banheiros, nem quadro, nem carteiras, mas que tem alguns poucos professores que, quando aparecem e quando não estão embriagados, ensinam. Ensinam como podem. Ensinam como sabem. Ensinam como aprenderam quando também eram crianças. E as crianças apanham, são violadas, têm seus direitos mais básicos desrespeitados, mas continuam indo. E vão porque sabem que aquela provavelmente é a única oportunidade que têm para serem mais do que o país lhes permitiu ser.
E o cara aquele da foto, se soubesse disso, se fosse inteligente, se andasse pelo seu país em vez de viver em um castelo de cartas cercado por soldadinhos de chumbo, se daria conta de que tem um exército poderosíssimo nas mãos. Ele adora exércitos, então iria gostar dessa novidade. E se, por fim, ele realmente amasse o seu país, como proclama amar, daria a essas crianças condições mínimas para que se desenvolvessem bem. Não pelas crianças, que eu sei que ele não se importa com elas, mas pelo país. Essas crianças são como capim, não precisam de muito. Elas não são assim tão caras. Se com o pouco que elas têm já dão espetáculo, imagina se tivessem acesso ao mínimo necessário.
E, então, o cara da foto, que assumiu o poder dizendo que os jovens poderiam mudar o país, faria jus ao primeiro presidente, chamado de Herói Nacional (aquele do feriado de 17 de setembro), que dizia que a revolução e a mudança da nação começam pela educação dos jovens.
Mas, pensando bem, talvez seja disso que o cara da foto tenha medo... Os jovens REALMENTE podem mudar Angola. E é possível que demore um tempo, mas, por tudo que já vi aqui, eu acredito, eu sinceramente acredito, que um dia eles irão fazê-lo.
Trituradora de ossos
A maratona dos deslocamentos continuou ontem. E eu, que pensava que a pior parte já tinha passado, dei com os burros n'água.
Como o aeroporto de Luena está interditado, alugamos um carro em Saurimo e partimos para Luena no domingo de manhã. A distância entre as duas cidades é de 260km, praticamente a mesma que liga Pelotas a Porto Alegre. O preço da passagem de Pelotas a Porto é de uns R$50. A empresa pagou US$600 para o motorista que nos trouxe. Acham muito? Eu, se fosse ele, não faria nem por US$1000. Um doce para quem adivinhar em quanto tempo fizemos o trajeto! :P Dou-lhe um, dou-lhe duas, dou-lhe três. Apostas?
Pois então... Oito! Isso mesmo. Ficamos OITO horas na estrada! Saímos às 8h e chegamos às 16h. Paradas apenas para a Palmeira que vos escreve tomar Plasil. Duas vezes. Era isso ou emporcalhar o carro. Não é de se espantar: quem não consegue andar de barco viking (nem de bailarina, né mano...) sem vomitar também não conseguiria passar bem em uma estrada trituradora de ossos.

Estou com um roxão nas costas, de tanto bater na lateral do carro e também é possível que meu estômago tenha trocado de lugar com os meus pulmões... Hehehehe Sério! Vocês não têm noção do que era aquela estrada. Essa foto aí de cima é de uma das partes que estava melhorzinha. Deixo que vocês imaginem o resto.
Mas chegamos. Dizem que é o que importa, né? Só não quero pensar em como vai ser a volta. Sorte que o estoque de Plasil está cheio!
sábado, 26 de setembro de 2009
Loucura, loucura, loucura
O bom de ficar um tempão sem escrever no blog é que o cunhado lindo fica com saudades e te enche de recados! Bem bom! Hahahaha
As últimas duas semanas foram super cansativas. Muita correria, muito trabalho, muito estresse. Ficamos uma semana no Cunene, uma semana em Huíla e ontem de manhã viemos para Luanda. Chegamos no aeroporto às 10h, esperamos as malas por mais de uma hora e depois ainda enfrentamos um trânsito enlouquecedor para chegar em casa. Almocei correndo e fui direto para uma reunião que durou das 14h às 19h. Depois Cléa e eu ainda tivemos que preparar todo o material para as viagens do Moxico e de Bié. Cheguei em casa às 21h, completamente exausta. E adivinhem onde estou agora... No aeroporto!
São 7:30 da manhã. Acordei às 5:30, como tem ocorrido quase todos os dias nas últimas semanas, e estou escrevendo sentadinha no chão do aeroporto, na fila do check-in. Como o aeroporto da Província do Moxico está interditado, teremos que pegar um vôo para Saurimo, capital da Província de Lunda Sul, de onde iremos de carro para Luena, capital do Moxico. A distância é de duzentos e poucos quilômetros, mas dizem que a estrada está em péssimas condições, então é possível que a viagem dure umas cinco horas. Vamos ver... Hehehehe
Em Huíla passamos por isso diversas vezes. Uma das escolas em que fomos ficava a três horas da cidade onde estávamos. A estrada era de chão batido, cheia de subidas e descidas, além dos enormes buracos e dos animais atravessando a pista a todo momento. O carro era uma daquelas Land Cruiser antigonas, que tem lugar para o motorista e mais duas pessoas na frente. Na parte de trás tem dois bancos (que na verdade parecem mais duas tábuas) colocados um de frente para o outro, encostados na parede do carro. Três horas pra ir e três horas pra voltar. Cruel! No outro dia foi melhor: a escola ficava a só duas horas de distância... :P
Mas enfim... Não dá pra dizer que não está sendo uma experiência única! Hehehehehe
Espero que meu corpo e minha cabeça aguentem mais essas duas semanas de loucura que, na verdade, mesmo com todo a exaustão, têm tudo para ser (junto com as duas últimas) as melhores da pesquisa. Depois disso, tudo deve ficar mais calmo e burocrático. Acho que ainda vou acabar tendo saudade desses dias... :)
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Domingo em Lubango
Domingo aproveitamos o dia para passear por Lubango. Fomos a um restaurante chamado O Criador, de uma cooperativa de criadores de gado. Apesar do que tudo indica, lá não é uma churrascaria. Na verdade, a comida em si não era nenhuma maravilha, mas o lugar era ótimo.
Sorte que, em um momento de distração do Tico, eu consegui separar os dois por um tempinho e pude tirar uma foto com ele. Claro que ele não ficou tão feliz comigo quanto estava com ela, mas demos umas voltinhas juntos e ele ia segurando na minha mão. Um amor! Hehehehe
Saindo do restaurante fomos conhecer o Cristo Rei, que é uma cópia meio mal feita do Cristo Redentor, mas que oferece uma vista lindíssima da cidade! A escultura é relativamente pequena, se comparada com a do Rio, e a face do Cristo está bem avariada. Pelo que vi o povo vai pra lá mais para apreciar a vista mesmo. E vale a pena! :)
A cidade de Lubango fica toda cercada por morros super bonitos! Coletamos dados em uma escola que fica no pé de um desses morros. A escola não tinha as menores condições de abrigar crianças, mas o cenário (externo) era simplesmente fantástico. Assim que conseguir, coloco algumas fotos pra vocês aqui!domingo, 20 de setembro de 2009
20 de setembro!
Ressalva importante pra começar o post: não vou entrar em discussões sobre questões históricas políticas e econômicas e blablabla a respeito do 20 de setembro.
O fato é que hoje eu acordei com um sorrisão no rosto, morrendo de vontade de ir para o Olímpico lotado, enrolada na minha bandeira do Rio Grande, e assistir uma vitória do meu Grêmio querido depois de cantar em alto e bom tom "Sirvaaaam nossas façaaaanhas de modeeelo à toda teeeerra!".
Na impossibilidade de estar de corpo presente na minha terra amada, peguei o boné que o meu gentil cunhado me "deu" e coloquei minha fitinha com as cores do RS, que a mãe fez pra mim há anos. O boné foi pra estar perto da família (ha ha), a fitinha pra fazer parte das comemorações e o chimas pra me sentir em casa.
Se estivesse aí hoje, com certeza daria umas voltas pela Redenção com a Loira e ela estaria com vergonha porque, no caminho, eu ia ficar balançando a bandeira do RS na janela do carro. Depois faríamos um belo churrasco com uma turma de amigos e iríamos para o Monumental torcer para o Grêmio querido. Saindo de lá, comeríamos um churrasquinho de gato e eu iria assistir os gols da rodada no Sportv (que, por sinal, faz uma falta danada aqui). Diver!
Pra completar a perfeição, eu iria falar com a Nana no telefone, o que não tenho feito ultimamente porque minha irmã e o meu cunhado são duas pessoas desalmadas que não me dão bola. Mas tudo bem, vou vivendo assim mesmo, vendo fotos antigas das crianças e imaginando como elas estarão hoje em dia. É um exercício para a imaginação... Hunf! Agora, por exemplo, estou pensando no Teteu e no Tuca de bombacha e na Nana e na Lívia vestidas de prenda. Que lindos! (ah! pra quem não sabe, estou falando dos meus sobrinhos fofos e amados :D)
Mas enfim... Deixem meu cunhado sem consideração pra lá. Hehehehe Aproveitem as festas por aí e se divirtam. Quando a gente está longe, faz uma falta danada! ;) Beijos gauchescos felizes a todos e a todas!
sábado, 19 de setembro de 2009
Imbondeiro
Em Angola, para onde quer que a pessoa olhe, ela vê um imbondeiro (para os brasileiros, baobá). É incrível. E lindo! São campos e campos repletos dessas árvores. Dizem que um único exemplar pode armazenar até 120 mil litros de água. Eu não sei se é verdade, mas também não duvido...os imbondeiros são gigantescos!

Terça-feira, indo para uma das escolas, tive a honra de conhecer aquele que é proclamado como o maior imbondeiro da África (foto acima). É o rei dos reis! Muito, muito, muito impressionante! A gente se sente como uma formiguinha quando está perto dele.

Agora os imbondeiros estão começando a ficar cheios de múcua, que é o fruto (ou a fruta, sei lá) deles. Em uma das escolas em que fomos, as crianças estavam se estapeando para ver quem conseguia pegar (e comer, claro) os frutos do chão. Eu pedi pra provar e achei um horror, embora tenha disfarçado bem :) Talvez o suco seja bom, mas a múcua pura é amarga que dói.

Aqui do lado está o registro desse encontro histórico: o dia em que a pequena Palmeira abraçou o imbondeiro gigante! Mazah! :D
Alguém aí enxerga um pontinho azul abraçando a árvore? Hehehehe
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